segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Arrojos




Com tantos poetas extraordinários Portugueses (provavelmente o país com mais e melhores poetas no mundo) é extremamente difícil não cair na tentação de editar aqui pelo menos um ou outro poema de alguns deles ( Fernando Pessoa e repectivos heterónimos, Florbela Espanca Cesário Verde, etc etc).
Por isso hoje aqui exponho um dos mais lindos poemas de Cesário Verde intitulado de "Arrojos".


Arrojos

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignonnes" e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,
Eu ergueria os vales mais profundos
E abateria as sólidas montanhas.

E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.


Cesário Verde

1 comentário:

Anónimo disse...

Oi tudo bem?
será que sabes de algum site que tenha a analise do poema Arrojos - Cesario verde? ( ja tentei procurar mas não encontr...)

1 beijo

kriolinha_di_ghetto@hotmail.com